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Meretneith: a mulher que pode ter governado o Egito há 5.000 anos

Estela de pedra com o nome de Meretneith, encontrada em sua tumba em Abidos, no Egito

Meretneith viveu há cerca de 5.000 anos, logo no começo da história do Egito unificado, e pode ter sido a primeira mulher a governar o país. Em 2026, o nome dela voltou às notícias por um motivo curioso: uma fotografia antiga, publicada há 72 anos, foi analisada de novo com tecnologia digital e pode trazer a pista que faltava. Só que nem todos os especialistas concordam com a conclusão.

Neste post você vai entender quem foi Meretneith, o que essa foto mostra, por que um pequeno desenho chamado serekh é tão importante e como os historiadores discutem um caso em que as provas são poucas.

Quem foi Meretneith

Meretneith viveu na Primeira Dinastia, o período em que o Egito tinha acabado de se tornar um só reino, depois da união entre o Alto e o Baixo Egito. Isso foi séculos antes das grandes pirâmides e cerca de 3.000 anos antes de Cleópatra.

O nome dela significa “amada de Neith”, uma deusa muito cultuada naquela época. Pelo que os pesquisadores conseguiram reconstruir, a sua família reunia vários reis:

  • Djer: possivelmente seu pai.
  • Djet: provavelmente seu marido.
  • Den: seu filho, que se tornou rei.

A hipótese mais aceita é que Den herdou o trono ainda criança e que a mãe governou em seu nome até ele crescer. Quem governa no lugar de um rei que ainda não pode reinar recebe o nome de regente. A grande pergunta é se Meretneith foi “apenas” regente ou se chegou a ser tratada como rei de verdade.

A fotografia de 72 anos que reacendeu o debate

Na década de 1940, o arqueólogo britânico William B. Emery escavou um túmulo em Saqqara, o grande cemitério da antiga capital Mênfis. Na entrada de um poço funerário, ele encontrou 13 tampões de barro, usados para fechar jarros. Cada um trazia marcas de selo com quatro serekhs.

Emery fotografou as peças e publicou a imagem em 1954. O problema é que a foto tinha pouca nitidez e, com o tempo, os tampões desapareceram: hoje ninguém sabe onde eles estão. Ou seja, a fotografia é tudo o que restou.

Foi essa imagem que a egiptóloga Susan Kelly, da Universidade Macquarie, na Austrália, decidiu reexaminar com a ajuda de Crystal Miller, usando técnicas digitais de realce. O resultado saiu em setembro de 2026 na revista científica Prague Egyptological Studies e foi noticiado por veículos como a Aventuras na História. Segundo as autoras, os sinais dentro de um dos emblemas combinam com o sinal principal usado para escrever o nome de Meretneith.

O que é um serekh e por que ele importa

O serekh é um dos símbolos mais antigos da realeza egípcia. Imagine um retângulo que representa a fachada de um palácio: dentro dele se escrevia o nome do rei e, em cima, ficava o falcão do deus Hórus. Ele funcionava como uma assinatura oficial do governante, bem antes de existir o famoso cartucho oval.

O ponto central é este: o serekh era reservado aos reis. Rainhas, príncipes e altos funcionários não tinham o nome escrito assim. Portanto, se o nome de Meretneith realmente aparece dentro de um serekh, isso indica que ela foi reconhecida como soberana, e não só como mãe ou esposa de rei.

Fotografia antiga de Umm el-Qaab, em Abidos, cemitério real da Primeira Dinastia do Egito
Umm el-Qaab, em Abidos, onde foram enterrados os reis da Primeira Dinastia e Meretneith. Foto histórica, autor desconhecido: KU Leuven / Wikimedia Commons (domínio público)

As outras pistas de que Meretneith teve poder de rei

A fotografia não é a única evidência. Há mais de um século os arqueólogos reúnem sinais de que Meretneith ocupou uma posição fora do comum:

  • Um túmulo entre os reis: ela foi enterrada em Abidos, no cemitério real da Primeira Dinastia, em uma tumba do mesmo porte das tumbas dos reis homens.
  • Estelas com o seu nome: diante da tumba havia duas grandes pedras gravadas com o nome dela, como acontecia com os reis. Elas foram descobertas em 1900 pelo arqueólogo Flinders Petrie.
  • Sepulturas ao redor: dezenas de túmulos menores, de servidores e funcionários, cercavam a tumba, outro costume ligado à realeza da época.
  • Selos e inscrições: marcas de selo ligam o nome dela a funções de governo, como a administração do tesouro, e a chamam de “mãe do rei”.
  • Escavações recentes: em 2023, uma nova campanha na tumba encontrou centenas de jarros de vinho com cerca de 5.000 anos, muitos ainda lacrados, sinal da riqueza reunida para o seu enterro.

Existe, porém, um detalhe importante: nas estelas de Abidos, o nome de Meretneith aparece sem o serekh. É por isso que a foto de Saqqara chama tanta atenção. Se a nova leitura estiver certa, ela preenche justamente a peça que faltava.

Nem todos os especialistas concordam

A ciência avança com discussão, e este caso é um bom exemplo. A historiadora Eva-Maria Engel, da Universidade Humboldt de Berlim, examinou a mesma fotografia realçada e chegou a outra conclusão: para ela, os emblemas trazem apenas o nome do rei Djer, e Meretneith não é mencionada ali.

Engel não nega a importância de Meretneith, já que reconhece que ela tem um túmulo entre os reis anteriores e posteriores. A divergência é sobre o que aquela foto consegue provar. E há um limite difícil de superar: como os tampões originais sumiram, ninguém pode examiná-los ao vivo. Todos trabalham com a mesma imagem antiga.

Por isso, o mais correto é dizer que Meretneith pode ter governado o Egito, e não que isso esteja comprovado.

O que essa história ensina

O caso de Meretneith mostra como se constrói o conhecimento histórico. Raramente existe uma prova única e definitiva. Os pesquisadores juntam pistas, como o tamanho de um túmulo, a forma de escrever um nome e a posição de uma sepultura, e discutem qual explicação combina melhor com todas elas.

Mostra também que mulheres exerceram poder no Egito desde muito cedo. Se a hipótese se confirmar, Meretneith terá governado cerca de 1.500 anos antes de Hatshepsut e quase 3.000 anos antes de Cleópatra, as governantes egípcias mais conhecidas.

E deixa um recado sobre a tecnologia: uma foto esquecida em um livro de 1954 voltou a render informação nova. Arquivos antigos ainda guardam muitas respostas.

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